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quinta-feira, 30 de julho de 2009
Pollyana.
Era uma vez uma garota.
Ela costumava odiar tudo que podia ser odiado nela, era um costume, uma defesa, assim não se decepcionava, costumava dizer: "Das minhas decepções o resto do mundo já dá conta".
E assim o era. Todos que ela conhecia a decepcionavam mais cedo do que o normal.
Ela sempre deu o melhor de si: "Não que você mereça o meu melhor, é muito pouco" e por isso esperava o melhor dos outros, que até tentavam, mas o melhor nunca era suficiente.
Uma pessoa que não se ama tampouco consegue amar outro alguém, pois, todo bom movimento em prol da felicidade alheia é só uma tentativa de parecer amável pra si.
Ela gostava de ballet e música clássica.
Tinham muita coisa, mas sempre faltava, estava sempre se sentindo completamente desamparada e vazia.
Conheceu Miguel no dia que pensou seriamente em suicídio pela terceira vez, ele disse: "Gosta do que você tem e ignore o que te falta".
Ele só falou isso porque é o que costumava fazer.
Pollyana pensava um bocado.
E soltando bolhinhas de sabão se perguntou de onde vinha a tristeza e por quê?
"Ignora o que te falta", ela estava sempre querendo outra coisa, se jogava xadrez queria bolhas de sabão e vice-versa.
Então ela viu as bolhas e viu que naquele momento soltar bolhas de sabão era o que ela mais queria, amou o que tinha.
Desde então: "tédio", "tristeza" e "ódio", foram banidos do seu vocabulário.
Passou a sentir vontade de viver.
E por não esperar nada, não decepcionava nunca.
Entendeu que não era uma menina qualquer e passou a amar o que podia ser, não que fosse o bastante, jamais será para ninguém, mas: "É o que temos por hoje".
Passou a dizer bem humorada para seus amigos, que passaram a achar o de hoje muito mais atraente que o de antes.
Miguel era cego e estava no ponto de ônibus:
- Você precisa de ajuda?
- Que voz triste!
- A minha?
- Sim.
- Hum.. eu sou triste.
- Você É triste? Que raro, a primeira pessoa assim que conheço!
- Você não deve enxer.. hm.. existe um bando de gente infeliz pelo mundo.
- Sim, temporariamente, claro, você é a primeira que é assim, como uma condição. Eu, que estou cego, nunca disse que era, por menor que sejam minhas chances de recuperar a visão.
- Bem, você não precisa de ajuda, né? Vou indo.
- Gosta do que você tem e ignore o que te falta.
Ela nem olhou pra trás.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Pontos de vista.
Ela não tinha nada além da vida.
Na verdade havia mudado com os pais e irmãos para São Paulo dois meses antes da tragédia, procuravam moradia ainda.
Tragédia: Todos indo para praia, um caminhoneiro alterado por cocaína bate no carro e mata todos, exceto ela.
Mariella continua viva. Viva e sozinha. Sozinha mas feliz.
Sim, é claro que houve o desespero inicial, a dor, a sensação de desamparo..
Mas agora, bem, agora já faziam 3 anos, ela sobreviveu de fato, mesmo sem nunca ter achado a moradia que procurara com os pais, agora achara uma espécie outra família, graças ao desamparo, os mendigos a acolheram como filha, com seus 11 anos - data do ocorrido.
Não houve conselho tutelar, juizado de menores, abrigo ou nada assim, ela tinha medo, medo do que poderia passar, sempre assistiu filmes de orfanato, então preferiu se virar sozinha, mas não precisou.. foi acolhida, tinha o que comer graças aos trocados que recebia das pessoas.. caridosas?
De qualquer forma estava viva e Mariella era feliz de todo coração.
Tinha sonhos e perspectiva, tinha sorrisos sinceros e mais nada.
Tim nasceu em uma família rica, na região dos Jardins.
Frequentou as melhores escolas - mesmo detestando - e estudou tudo que seus pais quiseram.
Era filho único, cercado de amores e cuidados.
Tim era contra quem dava esmolas "isso incentiva esses vagabundos a continuarem na rua", por isso não dava nunca, mas aquela garota tinha chamado sua atenção por algum motivo.
Talvez pela alegria, ele nunca tinha sentido aquele tipo de alegria, a alegria que parecia orgânica e imutável, a alegria que provavelmente devia ter nascido com aquela garota tão machucada pelas dificuldades da rua, que estava longe de ser bonita, mas era como se brilhasse e brilhava de alegria.
De modos que quando ele recusou-se a ajudá-la tentou explicar o porque, Mariella era esperta e gentil, entendeu seus motivos e no final disse, irônica "mas agora tenho que ver se arranjo alguém menos instruído que você, sabe, vagabundos têm que comer. Com licença".
Tim se sentiu desconsertado e por isso continuou tentando falar com ela e na medida que era ignorado, crescia a vontade de comunicação, mas ela era totalmente inacessível quando queria, de modos que ele voltou pra casa.
Mariella poderia tê-lo escutado, mas depois de ouví-lo chamar sua "família" de "bando de vagabundos", seria hipocrisia dela. Não pensou mais em Tim.
Em contra partida Tim procurava-a em toda esquina e queria encontrar um porquê, por que ela era tão alegre?
Por que ele não era?
O que lhe faltava?
Tinha um futuro quase certamente bom, tinha amigos, pais carinhosos, não lhe faltava nada, todas as roupas e bugigangas que queria ele tinha.
Tinha tudo, tudo..
De modos que ver alguém tão avesso a ele acentuou sua insatisfação com o mundo e com a existência, não era correto, era injusto, por que ela tinha algo que ele não podia comprar?
Se tornou cada vez mais introspectivo e triste.
Nunca mais tornou a ver Mariella.
E quando resolveu que não aguentava mais uma infelicidade sem sentido, escreveu em um papel "Mariella", sem saber o porquê, já que nunca soube o nome da garota.
Então tirou uma foto fazendo pose de cowboy com a arma do pai - ele tinha uma coleção de armar antigas - depois disso deixou a câmera gravando, sorriu pra a mesma e disse "foi ela e sua felicidade", posicionou a arma de maneira elegante de baixo do queixo e no vídeo se via a bala sair pelo topo de sua cabeça. suicídio
Enquanto Tim terminava com seu sofrimento, Mariella, com uma margarida atrás da orelha, andava descalça sobre a grama verde do parque do Ibirapuera e soprava uma cottonflower, sorrindo o sorriso dos que sabem sorrir.
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