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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Desigualdade social.

Era uma vez uma promessa, promessa de riquezas, de paz, de poder de consumo.

Maria finalmente ia ter o que merecia, tudo do bom e do melhor.

Ela e os 4 filhos dela finalmente teriam a casa, o conforto, a boa educação, a nutrição, as atividades extra-curriculares, eles teriam um carro e roupas novas.

Nada extremo, não é como se eles fossem mudar pra uma mansão (como o tio Cezar), mas eles finalmente poderiam comprar da comida que queriam, não da mais barata possível.

Televisão, internet rápida, roupa de cama nova. Nada extravagante, mas tudo muito bom e muito digno.

Até uma cadeira de escritório a Maria ia poder ter, ela estava casando bem.

E por alguns bons anos eles tiveram tudo, pizza todo domingo, brinquedos espalhados pela casa, bicicleta e chuveiro a gás. As contas sempre pagas sem atraso ou ansiedade.

Paz.

Até que um belo dia, voltando de alguma festa ou viagem, encontraram a porta da casa já aberta.

Apreensivamente entraram pra constatar que alguém tinha levado tudo.

Todas as roupas, cama mesa e banho, a televisão, as bicicletas, não tinha sobrado muita coisa.

E pior que isso, agora eles não se sentiam mais seguros vivendo ali.

A solução foi alugar um cantinho pequeno, só enquanto eles arrumavam a casa nova.

Dois quartos, crianças pequenas, podiam dividir um quartinho entre elas.

Os confortos também tinham que ser readquiridos aos poucos, apesar de ter todas as dignidades, ninguém aqui era rico. Mas ia dar tudo certo, eles iam conseguir sair dessa e voltar pra vida digna e confortável que já tinham se acostumado com.

Porém cuidar de 4 crianças não é fácil, ainda mais num ambiente tão pequeno e foi assim que começaram as brigas. Elas foram se intensificando.

Eventualmente até um prato foi lançado na direção do outro. Maria e seu esposo não estavam passando por um bom momento.

Mas pra sorte do esposo, a vizinha de porta era uma moça muito boazinha e compreensiva, sempre arranjava um tempo pra ouvir os lamentos do esposo e apresentar novas perspectivas. Ele não precisava continuar passando por aquilo, "assim como casou, hoje em dia descasa".

Tão boa a vizinha, tão simpática.

Eventualmente eles se davam tão bem que a moçoila se sentia a vontade de vir só de toalha, na frente das crianças, pra pedir pra ele ajudar com o chuveiro. Muito amigos.

E assim eventualmente ele, o esposo e ela, a vizinha viraram mais que amigos.

E o esposo decidiu que não era mais esposo. Que não ia mais cuidar das crianças (apesar de pela narrativa não parecer, as crianças eram dele, todos filhos dele). Ele simplesmente ia embora.

Deixar Maria e suas 4 crias no apartamentinho pequeno e claustrofóbico.

E foi.

Mas ele era muito bom e apesar de não cuidar mais dos seus filhos, cuidou muito bem da filha única (de outro casamento) da vizinha. Cuidou como se fosse dele.

E os dele ele via, vez ou outra, pagava a pensão e se sentia muito satisfeito com a própria escolha, afinal ele tinha que fazer o que era melhor pra ele.

"E a Maria é inteligente, ela se vira". Sem remorsos.

Acontece que fica difícil se virar quando você tem que cuidar de 4 crianças, não é como se você pudesse arrumar um emprego e deixar uma cuidando da outra. Então a Maria passou a depender da pensão.

Fazia um trabalho aqui e ali, quando dava, mas em geral dependia de uma ínfima porcentagem da renda do ex-marido.

Toda compra que ela fazia era a mais barata possível. Todo desconto, tudo que ela conseguia economizar, economizava. Nunca comprava nada pra ela e vivia sempre em função dos seus filhos.

Sempre e sempre fazendo de tudo e se virando como dava, então às vezes era um pouco insultante comparar a própria vida com a vida de outras pessoas que conhecia.

O orçamento que ela tinha pra alimentar os filhos pela semana inteira outros podiam gastar em doces e brinquedos, num dia só. Sempre tinham passeios e viagens e coisas que ela não podia fazer.

Era frustrante e parecia muito injusto. 

Por que ela tinha que viver com a corda no pescoço e outras pessoas nem chegavam a pensar na sorte que tinham?

Por que enquanto ela comprava a marca mais barata possível o outro se recusava a comer se não fosse da marca tal?

E pior de tudo, por que ela tinha que gastar o tempo e a energia dela tratando bem essa gente?

Essa gente ingrata, gente ruim, que inventava os próprios problemas, gente arrogante que se achava um máximo só por ter dinheiro. Riquinhos de herança.

É claro que ela não ia sair do caminho dela pra ser boa pra essas pessoas, eles que se virem, assim como ela se virava. Eles não tem tanto dinheiro? Que joguem dinheiro nos problemas.

E assim a frustração, a raiva e o amargor foi se instalando, como uma ferida aberta se  infeccionando, continuava a crescer. E crescer. E não parava.

E a Maria não precisava da ajuda (nem da esmola) de ninguém. Ela dava um jeito.

Mas tem coisas que não tem jeito, que só o conforto, a boa nutrição, a boa educação e as atividades extra-curiculares são capazes de dar. Não tinha nada que ela pudesse fazer.

E por não poder, não fazia. E se amargurava de não poder.

Mas pelo menos ela via essa gente caindo do cavalo, ficando pobres também, sem ter nada...

Eles se recuperavam às vezes, mas no coração dela ela queria mais é que eles se ferrassem mesmo. Porque é difícil conviver com a gritante desigualdade social e se manter imparcial, se manter calmo e em paz.

É difícil ser bom quando a vida não é boa.

E é fácil ser bom quando ela é.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

A construção do ser.

 Eu cresci em um ambiente de muita gente.

E como qualquer lugar com muita gente, tinha gente boa e gente ruim.
E as pessoas ruins que me cercavam, como a maioria das pessoas ruins, me julgavam muito.
Muito mesmo. Desde a mais tenra idade.
Desde que eu tenho memórias.

Quando você é constantemente criticada antes mesmo de entender o que é uma crítica, você tende a acreditar nas pessoas ruins.
"Você é ruim", "Você é feia", "Você é teimosa", "Você é irritante", "Você é gorda".
Nada dessas coisas eram reais porque eu não tinha nem tamanho ou oportunidade pra ser nenhuma dessas coisas, eu tinha acabado de chegar no mundo.

Mas quando um adulto fala pra você, uma criança pequena, que você é todas essas coisas você simplesmente acredita. Afinal de contas é um adulto, um ser responsável.
E ele não diria essas coisas se não fossem verdade, certo?
Eles não fariam isso, são adultos, afinal.

Eles só estão tentando me proteger e me ajudar a descobrir quem eu sou.
E por acaso eu sou uma criança que nasceu ruim, feia, teimosa, irritante e gorda.


Ao longo da vida fui descobrindo que era outras coisas também.
Por exemplo eu era extremamente desafinada, e não importava que meu tio que era músico há mais de 40 anos dissesse que não, que minha voz era linda e que eu cantava muito bem.
Porque a lógica que eu utilizava na minha cabeça de criança era que elogios podem advir de gentilezas, críticas essas sim tem mais peso e são mais reais.

Porque pra que alguém sairia do seu caminho pra tentar influenciar a vida de uma criança, se não fosse por amor e preocupação?
Ninguém é tão desocupado e amargurado assim.
Ainda mais uma pessoa da sua família.
Certo?

Errado. Tem gente que é sim.
Tem muita gente que é.

E a gente, como os adultos de agora, temos que lembrar quanta gente continua sendo assim.
E o quanto as crianças não falam.
Geralmente não adianta perguntar, o que mais dói na criança é o que ela mais vai esconder, principalmente se você for uma referência positiva na vida dela.
Ela não quer que você também ache que ela é ruim, feia, teimosa etc

Com crianças que somos guardiões então o que a gente pode fazer?
A gente deve adivinhar.
A gente deve sentir.
A gente deve intuir.

É por isso que colocar uma vida nesse mundo é uma responsabilidade tão grande, porque não cabe só a você educar, você tem que se conhecer tão bem, estar tão sincronizado com a sua própria essência, sentimentos e intuição que você é capaz de adivinhar quando alguém está propositalmente tentando sabotar a vida do seu filho. Quando alguém está sendo cruel com um serzinho que acabou de chegar no mundo.

O cuidador de uma criança precisa ser sobrenatural, mágico, pra conseguir protegê-la.
E não se engane, ele tem que protege-la.
Falhar em fazer isso é falhar como ser humano.

Não, traumas não criam caráter, pelo contrário, eles atrapalham e às vezes até impedem a pessoa de alcançar suas potencialidades.

Uma pessoa ruim é uma pessoa muito poderosa.
Porque a gente evoluiu pra temer o ruim, porque a gente precisa sobreviver e a melhor estratégia de sobrevivência é evitar o que faz mal.

Correr do que faz mal.

Não pode bater, não pode gritar e também não pode deixar os outros baterem, não pode deixar os outros gritarem. Não pode.

Será que é sequer possível estar preparado pra tanta responsabilidade?