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domingo, 22 de abril de 2012

Sobre Alzheimer, mas mais que isso, sobre o casal que me faz acreditar em amor.

Milton & Shirlei
Um português orelhudo, segundo ela.
A mulher mais bonita do mundo, segundo ele, "minha baixinha".
Meus avós, avós paternos.
Pra mim nunca existiu pessoa melhor no mundo que meu avô, nunca existirá, na verdade e nem que me amasse mais.
Minha vó sempre foi uma espanholinha braba com todo mundo, menos comigo.
Lembro de quando eu ficava na casa dela e toda tarde ela me levava pra passear no bairro e lembro também de dormir no quarto do meu pai, com a cama quebrada porque meus primos e eu pulamos tanto nela que quebrou e todo mundo achou graça.
Eu tinha um barzinho da Barbie que eles me deram e passava as madrugadas com uma luminária laranja achando a vida um máximo!
Ela só me dava banho quando começava a músiquinha do Castelo Rátimbum, mesmo que não fosse necessariamente a
nós duas esperávamos o ratinho ir pra toca, pra só depois eu ir pro banho, aliás nessa casa (eles já tiveram muitas, muitas mesmo), tinham dois box, e um buraco de um box pro outro, igual o que o Jerry morava e lembro que ela pegava uma bacia de alumínio e me dava potes de shampoo pra brincar, sempre do meu lado e só me tirava quando eu estava toda enrugada, com a água fria e finalmente dizia que queria sair, com toda paciência do mundo.
Lembro também de quando nós estávamos na Chácara que meu vô tinha e ele ia nos levar na sorveteria, daí eu e o Rafa, m
eu primo, sempre queríamos ir no carro deles.
Aí nós entravamos pelo buraco do apoiador de braço no porta-malas e ficávamos lá, todos malandrinhos, todos rindinho, achando que estávamos deixando eles mortos de preocupação enquanto eles fingiam que não sabiam e "se desesperavam".
A sorveteria que eles nos levavam se chamava Jóia e ficava na frente de uma praça, o que era realmente jóia.
E olha como eu era a mimadinha dos vovós?
Os dois sempre me trataram como o bebê deles e ainda hoje me tratam.
Meu avô e minha avó sempre foram um casal que se amou, obviamente.
Eu tenho certeza mais que absoluta, pode cair um meteoro na minha cara agora, podem arrancar meu coração e me fazer comê-lo depois se um dia meu vô ou minha vó foram infiéis ou desleais um com o outro. Sério, que eu morra AGORA!
Sempre se cuidaram, sembre brincaram, sempre andaram de mãos dadas e todo mundo comentava em qualquer evento social, sobre como era lindo e fofinho ver os dois e como eles dançavam juntos, como se tivessem dançando a valsa do casamento, risonhos, gargalhando, todos com passinhos e todos brincalhões.
Esse dois, muito mais que a Disney ou que qualquer artificialidade dessas, me fizeram sempre acreditar que existe sim um amor da vida, uma alma gêmea ou seja como você queira chamar.
Você pode até ter um companheiro, ser feliz com ele e amá-lo, mas amor da vida só existe um, a diferença é que com o companheiro você tem sempre a opção de ir embora, com o amor da vida não, apenas porque não faria sentido abandonar um amor assim. E foi o que a existência do relacionamento deles que me fez e ainda me faz acreditar.
É difícil achar esse amor da vida, mas ele tiveram a INCRÍVEL felicidade - porque são pessoas que merecem também, né - de encontrar e viveram a vida mais feliz e apaixonada do mundo todo, bom, viveram não, ele ainda vive.
Não que minha vó tenha morrido, até porque se ela tivesse eu não estaria aqui escrevendo esse texto e sim morta também, né.
O que aconteceu, na verdade, é que há mais ou menos um cinco anos minha vó, minha espanholhinha linda, bravinha, dos olhos mais lindos e com a capacidade que só ela tinha de me fazer sentir especial e me mimar e amar tanto a vida toda, começou a desenvolver Alzheimer.
Lembro que logo que começou, eu passava a tarde com ela e com o Bielzinho que era bem bebêzinho na ocasião. No começo era a coisa mais triste do universo, ela inventava realidades paralelas onde achava que meu avô estava sendo desleal e outras coisas que faziam ela sofrer de verdade.
Eu conversava com ela todo dia, imprimia pesquisas, explicava o que estava acontecendo e ela ficava desesperada "EU NÃO ESTOU FICANDO LOUCA".
Mas isso era quando ela tinha ainda alguma consciência.
O tempo foi passando, meu avô levando ela em todos os médicos do universo, dando todos os remédios e fazendo todo o possível, mas a doença foi se agravando, porque infelizmente é assim que ela funciona, o tratamento só retarda um pouco mais os sintomas inevitáveis, ok. Chega da parte triste.
"Como assim, Ferdi, a história do Alzheimer da sua avó tem uma parte feliz?"
Tem, não só feliz como a coisa mais bonita do mundo.
Bem, hoje em dia a vó não responde sempre, aliás, quase nunca, precisa usar fralda e ser cuidada 24 horas por dia.
No estágio que ela está muita gente teria colocado ela numa dessas clínicas de "cuidados especiais", (especiais, aham), afinal de contas "ela nem ia saber". Só a possibilidade de um negócio desses ofende meu avô.
O que ele fez quando as coisas foram complicando?
Meu avô é chaveiro (que é uma das profissões que eu acho mais legais no universo, aliás) e ele tem esse chaveiro no mesmo lugar há uns 40 anos, então ele comrprou a casa de trás, fez uma interligação e contratou uma pessoa pra cuidar dela, mas de modos que ele possa de hora em hora ir ver como ela está e dar carinho e atenção.
E vocês acham que por um segundo ele lamenta ou parece triste? Meu avô é a pessoa mais alegre que eu conheço, essa foto da boneca, ali de cima, foi tirada hoje na hora do almoço, ele todo bobo fazendo graça pra ela. Aliás aquela boneca, pra minha vó é na verdade um menino, o bebê dela que ela cuida, ela leva pra lá e pra cá e meu vô entra na onda, brinca com o bebê também, chama de menino e tudo isso.
Ele está sempre rindo e contando as coisas tragicamente engraçadas que ela faz e fala.
Ele dá banho, troca as fraldas, dá comida na boca e ainda assim consegue se sentir apaixonado, não é só respeito e consideração. É amor mesmo. E como eu sei disso?
É só olhar pra cara dele:

domingo, 21 de novembro de 2010

Kevin Barnes.

She was there and she was there again, she told me that I was her inspiration for so many things and I couldn't understand all the things that she said to me, 'cause the music was too loud.
I understood that I was special for her and when she hugged me she kissed me, so I laugh and remembered my song, she was such a crazy girl, a fine girl.
She told me I was someone who knows how to hug and that she had writed a letter to me, they tell me that she was very ansious to talk to me and I think everything was just.. nice.
ps.: of course that this is an dream.

terça-feira, 2 de março de 2010

Meu Snoopy.

Luis: o Linus deu um beijinho na Patty Eu: Quem? Luis: do Snoopy a Patty foi falar com a Garotinha ruiva e viu como ela era linda e começou a chorar porque ela se achava feia e ninguém nunca iria ama-la do jeito que o Charlie Brown ama a garotinha ruiva aí ela diz que o único que entende o que ela sente é o Snoopy, e que ele daria um beijinho na bochecha dela naquele momento, se ele estivesse lá aí o Linus beija ela, ela fica "Uau você me beijou" e ele diz Beauty is in the eyes of the beholder Eu: mas, ai, que lindo. eu sou a paty. Luis: Eu sou o Snoopy. Eu: sim, porque só você entenderia minha extrema melancolia e me daria um beijinho na bochecha se estivesse lá. Luis: exatamente, eu realmente faria isso. Eu: eu sei. Obrigada, amigo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

So like a rose.

Eu as amo e amo tanto que só posso estar radiante. Elas vão viajar, passar muito tempo longe de mim, aprenderão tantas coisas, conhecerão tanta gente nova, tanta vida nova, outros sorrisos, outros humores, outros mundos. Voltarão tão melhores. Eu só posso estar MUITO feliz. Eu já sabia que ela tinha passado: - Dez minutos pra nossos destinos mudarem pra sempre. - Estou ansiosa. Estávamos em uma papelaria, elas queria ir embora, e eu hipnotizada por tudo não atendia ao chamado, elas me deixaram lá e se esconderam. Olhei o relógio: 14:04h. "Deveríamos estar sabendo se sim ou não há quatro minutos. Cadê aquelas malditinhas?" Encontrei-as dentro de uma loja de departamento: - Liga logo. Eu não sei porque estava tão ansiosa se já sabia a resposta. Ela tinha passado. O telefone tocava lento, criando uma falsa expectativa patética, sentia-me uma atriz. - Alô? Hmm.. Ai, ai.. Ela começara a chorar e foi esse o único momento que me senti cheia de esperanças (esperanças de que minha amiga, uma pessoa que eu amava, não tivesse conseguido algo que queria TANTO?), mas tão rápido quanto me veio se foi, lágrimas de alegria, claro, sua burra. Esperanças fugazes são piores que desolações definitivas. Ainda mais em situação assim.. "Eu passei, eu passei.." ela repetia emocionada, não sei concretamente o porquê, mas meu olhos se encheram com mais lágrimas que os dela e eu comecei a soluçar. As três no shopping, pessoas passando, eu queria dizer "Parabéns" e ao mesmo tempo queria detestá-la, ninguém sofre quando alguém que se detesta vai embora.. mas em que mundo seria possível detestar pessoa de olhos tão brilhantes e coração tão colorido? Queria arranjar culpados e culpei todo mundo, minha mãe pelo meu nascimento, a outra amiga por tê-la me apresentado, o chão por nunca ter engolido-me antes que minha Ursa fosse embora, antes que minha Ursa achasse outra Gata.. Nós duas estávamos no quarto dela, sozinhas em casa, eu falava da importância de não deixar-se podar: - Nós somos adolescentes e é maravilhoso que possamos agir como tal. Que dancemos e tenhamos gírias e apelidos imbecis, próprios de adolescentes, nós somos adolescentes, porra! E, veja, adolescentes falam palavrões, wow! Ela ria aquele sorriso que ia até os olhos, que evidenciava ainda mais a quantidade linda e absurda de cílios que aquela menininha possuía: - É, às vezes eu sinto falta de ser ridiculamente adolescente, sabe? De fazer isso que estamos fazendo ou colocar uma música boba e dançar simplesmente. Uma penteava o cabelo da outra alternadamente e eu sugeri que ela colocasse então qualquer música dançante e ela aderiu a sugestão, dançamos. Da maneira mais adolescente possível, caras e bocas, movimentos de Oompa-Loompas, jogadas patéticas de cabelos, por alguns minutos nos permitimos ser o que somos: Adolescentes. E foi maravilhoso. Ouvíamos Garbage e a música que vinha em sequência era "So Like a Rose", ela me mandou prestar atenção na letra. Ela é das poucas pessoas que eu olho bem fundo nos olhos, entendo toda a alma e não sinto medo nenhum, receio nenhum, entrar na alma dela é como entrar na minha própria, é quase natural e não dói, nossos olhos como sendo óbvio acesso a alma começaram a encher-se de lágrimas, então ela pegou minhas mãos, sentamos uma de frente pra outra e ela cantou pra minha existência: "The stars are out tonight (As Estrelas estão saindo essa noite) Only they can hear you breathing (Só elas podem te ouvir respirar) You're so like a rose (Você é como uma rosa) You're so like a rose (Você é como uma rosa) You're so like a rose (Você é como uma rosa) I wish you could stay here (Eu gostaria que você pudesse ficar aqui)" Eu queria gritar que EU ia ficar, eu ficaria pra sempre, eu sempre estaria alí, era ela quem estava indo embora, mas quando ela mesmo me deu, com muito cuidado, a notícia que nossa outra amiga estava indo morar um ano na Holanda dalí menos de um mês, quando ela me viu empalidecer só me pediu pra não sofrer assim na frente dela: "Já é tão duro nos deixar aqui sem que a gente mostre que vai ficar sangrando", parecia que já sabia que seria a próxima. Eu falei que as duas vão com menos de um mês de diferença? Meus portos-seguros, minhas maiores identificações, complementos. Momentos de filme com chuva, todas as bandas, todos os segredos, os medos, as filosofias, eram elas, só elas me entendiam inteiramente, com mágoas e eventuais arranhões eram só elas que estavam sempre ali, meus seguros colos. - Eu vou fazer minha festa de despedida dia 26. - Ah, eu estava pensando em fazer a minha dia 26, porque dia 27 vai ficar mais difícil.. - Podíamos fazer juntas, mas acho que ficaria muita gente, não íamos conseguir dividir as atenções e nem nos despedir. - Pois é.. Eu me sentia um lixo ouvindo aquela conversa das duas: - Eu não vou chamar vocês pra minha festa de despedida, vai ser dia 25, mas não chamo vocês não, vocês são toscas e eu que não chamo gente tosca pra festa minha. - Pra onde você vai? Perguntou confuso o namorado de uma delas: - Ela está brincando. Não consegue conviver com o fato que vamos fazer algo que ela não vai. Seria isso? Seria além da tristeza inveja? Não que eu soubesse, eu não deixaria minha amada São Paulo, não sem levar meu irmão, pelo menos e isso era impossível que eu pudesse carregá-lo pra qualquer lugar, além do mais tinham meus trabalhos, minha peça, a peça que eu estava desenvolvendo. O que ela quis dizer? Fui andando na frente magoada, além do quê o garoto que eu esperava ver não viria, a vida estava uma merda naquela merda de dia. Se eu fumasse teria acendido um cigarro.. Ainda no quarto dela eu tirei meu potinho de fazer bolhinhas de sabão da bolsa e fiz uma bem grande e bonita, disse: - Essa bolha é sua, guarda ela pra sempre. Ela segurou a bolha nas mãos com ternura e disse que guardaria: - Por que você está chorando? Eu vou voltar sempre. - Mas nunca vai ser a mesma coisa, são cinco anos.. Desabei. Você vai encontrar outra pessoa como eu e ela vai ter o mesmo sorriso e humor e vai ser esquisita e falar coisas que não farão sentido nenhum pra quem não conhecer o jeito dela, ela vai se fantasiar ao invés de usar roupa, vai gostar de teatro e ser obcecada por alguma banda freak, ela vai amar artes, todos os filmes que a gente ama, mas ela será ainda melhor, porque além de tudo ela gostará de Radiohead e vai ser tão mais engraçada.. Então você inconscientemente terá outra eu e isso é bom porque minha ausência não vai ser um fardo pra você, eu não quero que ela seja, eu quero que você seja sempre feliz, mas você vai me substituir e eu espero um dia chegar perto de ter alguém tão acolhedor e amável quanto você, eu duvido, mas espero muito, então nossas vidas.. - Pára de falar tudo isso, você não sabe o que eu sinto aqui dentro, você não tem idéia do quanto o que a gente tem é importante. Eu amo outras pessoas mas o que nós temos é único. Você chegou em um momento em que eu me sentia sozinha, excluída, incompreendida e de repente tudo que eu pensava você entendia, nós passamos infâncias iguais, embora sem sabermos da existência uma da outra, você fez minha vida fazer sentido de novo e fala como se uma mudança de cidade fosse apagar nossa amizade. Isso me magoa, Gato, isso realmente me magoa porque eu te amo muito.. Ficamos abraçadas por um tempo e pra cena não ficar dramática demais ela começou a dizer que meu cabelo era liso chato e eu comecei a atribuir poderes ao mesmo, porque na verdade ele realmente é mágico e tem poderes do tipo, se eu quero que ele fique curto e enrolado é só dar ordens mentais e ele até muda de cor e sai voando depois se cola de novo na cabeça e ele é um cabelo super especial, mas ela como uma boa menina de dezessete anos e mentalidade de cinco repetia "Liso chato, liso chato" e me mostrava a língua enquanto a gente parava de chorar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lágrimas veladas.

Como lidar com a partida de alguém que vale mais que todos os diamantes do mundo? Uma partida temporária, sim, mas nem por isso pouco dolorosa. Ela me disse pra ser forte e não mostrar minha tristeza e foi tudo que tentei fazer, embora não possa falar muito sobre o êxito da missão. Eu só queria abraçá-la e dizer "Você não sabe a falta que vai me fazer, não tem idéia..", mas eu choraria e prometi não chorar, não dificultar nada, então me calei, não lembro nem se disse que a amo, acho que não. Talvez tenha sido melhor assim, meus olhos estão sempre a me pregar peças, estão sempre a fazer jorrar torrentes de sentimentos em situações que ninguém quer, é involuntário, não há como estancar e nem porquê se desculpar, então eu sempre fico atenta. Muito atenta. E vejo uma pessoa como ela, que me ensinou tanto quanto ela, que me mudou tanto quanto ela, que me proporcionou momentos que só ela conseguiu, uma pessoas assim, que me faz rir dessa forma só dela, alguém especial assim, indo assim "por pouco tempo". Sem uma lágrica pública. Nenhuma.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Uma tarde de lágrimas e descobertas.

- Mas meu cabelo está sujo. - Ah, deixe de ser chata e vai logo. - Quer ir junto? - Pode ser.. Chegaram no local combinado e ninguém ainda tinha entrado, estavam esperando sabe-se lá o que, com rostos felizes: - Vamos entrar? - Estamos esperando. Então nossa protagonista deu a mão ao seu pequeno irmão e foi correr em volta da praça, viram uma estátua, se aproximaram e haviam vomitado na base dela. "Ew", disseram em coro e continuaram a correr. Quando se cansaram, juntaram-se ao grupo de músicos que já estavam prontos para entrar no bar, apesar de nada ter mudado. - Ah não, vai demorar, você disse que só daríamos um abraço, que saco. - Ai, filha, calma, as meninas nem chegaram ainda. A garota fez bico e se sentiu triste sem ter certeza do porquê, talvez fosse porque sua mãe tinha todos aqueles amigos incríveis e ela estava lá com eles, porém sozinha. - A Fê faz teatro. - Faz, é? Interessou-se o trombonista. - Faço sim. - É a primeira peça profissional dela, mas todo mundo adora. Endossou a mãe, que costumava ser caixista. - É, é muito legal, estou adorando muito fazer. - A última peça não-profissional que ela fez o Biel participou também, né, bebê? - Sim, eu era o filhinho. Disse o irmãozinho meio tímido, meio orgulhoso. - E você teve que ir assistir com uma toalha de mesa, né? Babador não serviu. Comentou a sorridente tubista. A partir de então a menina não se sentiu mais sozinha, sentiu-se um deles, embora não fosse. Falou de suas ambições musicais, recebeu conselhos, fez um monte de projetos mentais, conversou, conversou e conversou e notou o quanto era tola por desperdiçar tesouro tão importante que tinha dentro da família, toda aquela sabedoria musical, toda aquela alegria. A banda.. a banda.. tinha uma outra caixista na banda e ela estava com câncer de mama, careca, extremamente alto-astral: - Ah, só é um saco que quando você começa a melhorar da químio, chega o dia da próxima. - É de quanto em quanto tempo? - 21 dias. Mas graças a Deus já foram 2, são 6, faltam só 4. - Ah, pelo menos já foi a metade. - Como, mãe? Riu-se a menina. - Sim, oras.. ah.. eu nunca fui da matemática. - Sempre foi, se é da música, é da matemática. - Mas paro por aí. E até esse assunto era leve naquela mesa onde cada um bebia um suco colorido diferente. Então começaram as lembranças: - Posso contar sua mal criação? Perguntou a primeira caixista pra segunda, que sorriu. - Pode. - Na frente do seu marido? Riu-se a outra. - Pode. E fez expressão fingida de vergonha carinhosa. - O Mané (maestro) é como um pai pra mim, mas era bravo! E o pessoal da cozinha (bateria) sempre ficava de castigo, toda a molecada ia pro parque brincar nos brinquedos de graça, mas como tinha alguém né? E nesse momento ela sorriu um sorriso engraçado e repressor pra segunda caixista. Que errava nós nunca tínhamos intervalo e ficávamos lá, tan, tan, tan tarara, tan, tan.. Então nossa querida Ingride, depois do intervalo, pediu pra ir no banheiro, o Mané "não", "mas eu estou apertada", "toca e fica quieta". Ela olhou pra mim e disse "vou fazer nas calças" eu comecei a rir e falei "tem coragem?" quando vi começou a se formar uma poça gigante, o Mané ficou louco.. Pra você ver como desde sempre era geniosa. - Ué, eu precisava, ele não deixou. Se defendeu ela sorridente. O assunto fluía com naturalidade entre todos eles quando a saxofonista (e filha do maestro) chegou com a bombardinista. Depois das devidas apresentações e acomodações, mais lembranças: - Você foi pra Brasília com a gente? Perguntou a mãe da menina para a saxofonista. - Quando? Em 80? - 18 de abril de 1980. Exatou o tocador de baixo-tuba. - Que exatidão! É, pra comemoração dos 20 anos de Brasília, você foi? - Claro, nossa, quantas lembranças.. Respondeu a saxofonista. - É, uma que me ficou muito nítida foi o seu pai. Eu fui sentada do lado dele no ônibus e a viagem foi longa, né? Lembro que de noite fazia muito frio e meu blusão tinha ficado no maleiro, aí eu comecei a sonhar com minha blusa, diz seu pai que eu ficava tentando agarrar alguma coisa no ar, hahaha, tanto frio que até sonhei, mas depois que seu pai reparou que era frio ele tirou a blusa dele e me aconchegou, aí eu dormi o resto do caminho. "Com o que extavax a sonhares, mênina? Tentavax agarar all-guma coisa no arr". Imitou desajeitada um sotaque português e riu-se depois. Eu amo muito seu pai, ele é meu mestre e maestro. Continuaram a falar mas um aperto no coração da menina a fez parar de ouvir. Abriu seu celular e escreveu: "Estou com um bando de músicos - amigos da minha mama - e lembranças, acabaram de contar uma história de agasalhos e me veio até lágrimas nos olhos lembrando de você.." O resto do conteúdo da mensagem não nos importa agora, mas era verdade, aquelas conversas quase a fizeram chorar. Esse amigo da mensagem era um enigma pra ela, um enigma sim, ela o amava muito, muitíssimo e por amá-lo tanto queria estar por perto, mas era sempre complicado demais, desgastante demais e isso a machucava, nunca duvidou da reciprocidade do sentimento, porém, não entendia muito bem tanta distância e às vezes considerava ignorar pra sempre aquela amizade. Mas era de verdade e portanto, impossível de esquecer. De qualquer forma, a questão foi o cobrir em um ônibus frio de noite enquanto ela dormia, ele fizera isso um dia, coisa que a enterneceu tanto, mas tanto que um dia contaria aos seus futuros sobrinhos, voltou a musicalidade. Falaram agora de uma surpresa que certa vez fizeram pro Mané: - Nós ensaiamos "Solfejando" (era uma das composições do Mané, uma espécie de hino) durante um mês, sem que ele soubesse, claro e quando fomos tocar debaixo da janela dele.. A Isabel diz que quando ele ouviu, quando reconheceu a música dele começou a se trocar emocionado e falando "São meus meninos, são meus meninos". - Meninos, pra ele sempre seremos seus meninos.. - Claro. E da sacada ele nos regeu e nós ficamos repetindo até ele descer, se ele não enfartou aquele dia, nunca mais enfarta. A menina se emocionou com a emoção que o trombonista, que era também seu tio, contou a história e gravou pra sempre na sua memória quando, no meio da despedida, ele também, disse: - Nós nunca mais vamos nos separar. Em coro todos concordaram: - Nunca mais. Ela não pôde dizer nada, já que era uma convidada, mas desejou muito nunca mais se separar, nunca mais. Eles eram gênios, da música e da vida.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Josenilda vai ser vovó.

Hoje eu acordei e minha empregada estava aflita pra desabafar: - Fernanda, eu tou aqui querendo que você acorde e nada de você acordar, eu querendo que você acorde e nada de você acordar. Ela me acordou dizendo que o almoço estava pronto e eu me troquei: - Fernanda, você não sabe, eu vou ser avó! - Parabéns, a Andressa então.. - Não, a Manu. E eu fiquei em choque. A Manuela tem 15 anos, eu vi ela crescer, aliás, crescemos juntas. Até hoje ela tem uma boneca que eu dei pra ela e foi a maior alegria da vida dela. Ela vem em casa às vezes e eu gosto dela: - Como a Manu? Ah, er.. HAHAHAHA, sua monga, sua sem graça. - Não é piada. Mas ela estava rindo, rindo de desespero, rindo com lágrimas nos olhos, ela não estava brincando: - E agora? - E agora eu vou amá-lo. - E que você falou pra ela? - Que ela tinha se ferrado, que ela não ia pra baladinha e nem nada, mas eu vou deixar ela estudar, eu vou cuidar dele enquanto ela está nos cursos dela, agora baladinha nem pensar. - Você brigou com ela? - Claro que não. Ela disse claro que não, como se o natural fosse esse, como se todos mortais tivessem o mesmo bom hábito: - Que eu faria? Jogar na rua? - É, todo mundo erra. - Sim e ela é minha filha que eu amo e agora vou amar meu neto, o pai dela também apoiou e disse que vai ajudar no que puder, mas ela só chora.. - Acredito que sim. - Me dói o coração ver. - Tadinha. - Tadinha mas na hora.. enfim. Ela foi no médico com a Andressa e o doutor perguntou 'Que essa criança tem?' e Andressa respondeu 'Outra criança' e o médico fez assim 'Oh'. Nessa hora ela fez uma cara de espanto engraçado. Ela estava rindo de nervoso, mas parecia realmente feliz. Eu não sei se teria a mesma reação, mas sei que se todos os pais do mundo tivessem, o mesmo seria muito menos problemático, muito menos cheio de complexos, de rejeições, de dores, se todo mundo fosse assim compreensivo não haveria tanto medo, tanta violência e desamor. Não que eu seja condescendente com a idéia de uma criança engravidar, muito pelo contrário, porém feito, que seja amado.