segunda-feira, 20 de novembro de 2017

I lost it.

Há alguns anos eu era outra pessoa, adolescente, claro, ajuda, mas alguém com esperanças e sonhos e principalmente com algum senso de valor, de amor próprio.
Ao longo do tempo eu só perdi.
De repente tudo que eu falava ou pensava era só alguma frivolidade sobre alguma conversa que eu escutei na fila de algum supermercado sem rosto.
De repente, ao longo de longos anos, eu me tornei esse semi ser, esse vazio inconsolável de mentiras e mágoas que eu nem sei de onde apodreceram.
O tempo passou e minha essência volatilizou, sem me reconhecer eu fui aceitando cada vez menos, cada vez menos vontade, menos alegria, menos amigos, menos empenho.
Pouco a pouco eu fui cedendo meu eu e me tornando um alguém sem norte.
Eu desisti de mim por completo.
Viver em função.
Não posso me matar sempre por conta dos outros.
Os outros.
Meia dúzia de pessoas que nunca desistiram de mim, meu irmão, meu melhor amigo e amor, um ou outro amigo, meus gatos?
Esse tempo todo eu batia minha cabeça sem saber o porquê de tanta gente boa ainda esperar que eu esperasse algo da vida e, de repente, um lembrete: um texto.
Um texto juvenil que falava das minhas intenções de ser um espírito livre, sem nada a perder, vagando pelo mundo, procurando um canto pra abraçar uns animais e trocar umas histórias com quem aparecesse por aí.
Eu não sou a mesma pessoa que escreveu aquele texto (sequer sou uma pessoa no momento), mas lembrar dessa faísca reacendeu algo, ressuscitou em mim a vontade de ser.
O quê eu nem sei, mas buscar, me dar mais uma chance, ressignificar algum valor, algum amor pelo que pode vir a ser.
É muito difícil perceber que é tão fácil se perder e ficar assim, como um barco perdido no meio do mar, sem remos, sem perspectivas, só o vazio e a solidão.
Mas ao mesmo tempo essas palavras que saem de mim são como vida escorrendo dos dedos, não para mais ninguém, sem nenhuma pretensão, como sempre foi, mas pra eu não esquecer.
Nunca esquecer.
Ferdi, não esquece: tem vida dentro do seu peito, é só acordar e cuidar.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

7 horas da manhã.

Acordei.
Um frio na espinha e dor na cabeça.
Responsabilidades.
É difícil não concordar ou querer fazer parte do mundo em que você nasceu.
É difícil porque você tenta se adequar o tempo todo, mas nunca é suficiente.
Você nunca fica adequada, você no máximo finge alegria e depois passa horas rolando na cama e puxando os cabelos.
Os adolescentes estão sempre repetindo que não pediram pra nascer, mas eles também não podem se matar.
Poder poderiam, mas e minha mãe, meu amor, meu pai, meu irmão, minha tia, minha avó, meu avô, eles também não pediram pra passar por esse tipo de desgosto.
Eu obriguei eles a me amarem, você obrigou eles a te amarem e por isso não pode ir embora assim.
E a vida sempre pode melhorar, é o que te dizem.
Amanhã você pode arranjar uma coisa que ama fazer e ganhar dinheiro com isso e pronto, a vida faz sentido de novo.
Só que nunca fez e nunca vai fazer.
Não é esse o problema.
Não é porque você vive numa bolha de conforto e proteção que você não vê ou entende o que se passa com o mundo.
E você, que vive nessa bolha, se sente assim, triste, doente, amargurada, ansiosa e com vontade de morrer, imagina qualquer outra pessoa.
Imagina a tortura que é a existência pra alguém que além de tudo não tem conforto, não tem proteção, é visto pela polícia como ameaça, ou pelas famílias como um desgosto, ou pelos homens como alguém de menor valor, ou pelos humanos como puro instrumento de satisfação da gula.
Imagina você, você que não sofre de fato a dor na carne, sua dor é na cabeça, sua dor é espiritual e ainda assim ela dói tanto.
Às vezes eu paro o meu dia pra imaginar o que que seria um enforcamento.
Tudo isso por causa de uma conta pra pagar?
Tudo isso por causa de um mundo que privilegia o mau?
Tudo isso porque, cada dia mais, o mundo parece anestesiado?
A arte é só entretenimento e quando é de fato arte, ninguém para pra prestar atenção.
E se para, logo volta, porque a arte tá aí pra te fazer enxergar e refletir e tudo é tão destruído e errado, que não dá pra culpar a população por querer nem saber.
Cerveja, balada, selfie, pool party, drogas, consumo.
Qualquer coisa que te tire da cabeça a insignificância da sua existência, porque é isso.
Você vai acordar e sofrer cada dia da sua vida e pra nada.
Ninguém vai lembrar de você 10 anos depois da sua morte.
Ninguém vai citar seu nome.
A não ser que você tenha sido algum tipo de celebridade, aí sim vão lembrar de você, por mais 50 ou 60 anos e depois também você vai ficar no vazio, no limbo do nada, porque não existe nada, não existe propósito, não existe porquê.
Você poderia muito bem ser o robôzinho, do Rick and Morty, cujo o propósito da vida é passar manteiga e nada mais.
"Oh my good", com as mãozinhas pra cima.
Sua desilusão não torna as coisas melhores.
Então é melhor você aproveitar o hedonismo, quando for possível.
E poder, na verdade, é só o seu ego.


Desenho que eu fiz ontem, sobre o desalento de hoje




domingo, 16 de outubro de 2016

Estudar é uma constante.

Ou deveria ser.
Todo dia aprender algo novo, algos novos.
É triste que seja tão possível viver uma vida sem curiosidade.
Você nasce, cresce, vai pra escola e enquanto é desenho e massinha você adora, mas de repente tiram isso de você.
As matérias que começam a te apresentar desconsideram inteiramente a possibilidade de existir algum artista entre tantas crianças.
O conhecimento.
O conhecimento fica lá, como um estorvo.
O professor tratado como alguém desagradabilíssimo, ganhando mal, sendo ameaçado, não tendo voz, valor ou qualquer possibilidade de se defender.
Desconsidera-se também completamente o melhor método de aprendizado pra cada aluno, as classes são separadas de maneira aleatória, nenhum teste ou conversa pra saber quais alunos aprendem igual, quais alunos teriam mais afinidades, quais alunos poderiam se ajudar. Não.
A escola é uma competição.
Seja competindo pra ver quem é o mais inteligente e tira as melhores notas, seja competindo pra ver quem é o mais burro e tira as piores notas, seja pra competindo pra ver quem mais socializa.
O aprendizado vira outra coisa.
"Quem faz a escola é o aluno" e de fato, o universo está pronto pra te ensinar tudo que você quiser, não tivesse a sua curiosidade sido assassinada pela escola nos termos que ela existe nesse momento.
O interesse em aprender precisa estar necessariamente vinculado a ganhar dinheiro, se não estiver "pra que você gasta tanto tempo com (insira aqui uma atividade que te faz compreender o mundo mil vezes melhor, porém não enche automaticamente o seu bolso de dinheiro)".
"Mas tantas pessoas sérias, nas universidades".
Tanta criança branca, rica, de escola particular nas universidades.
E ainda assim, quando as crianças pobres começam a engatar nas universidades não só são acusadas de despreparo como, em seguida, são expulsas do seu lugar conquistado por um golpe de estado.
E as pessoas desse país foram tão bem educadas que acham isso uma boa ideia.
A apreciação pelo que te faz sentir parte de uma coisa maior, entender o quanto a natureza e você são uma coisa só, os processos que fazem as pessoas serem elas mesmas, descobrir novos músicos, novos pintores, escultores, toda espécie de criação, entender processos científicos que mudam nossa vida todo dia, desafiar sua inteligência. Não.
E sabe por quê?
Porque o mundo é uma competição e só um tipo de inteligência é valorizado.
Ganhar dinheiro.
Pode trapacear, pode passar por cima do "amigo", tá ganhando dinheiro?
"Esperto é ele".
E a gente segue assim, nessa depressão e vontade de morrer constantes, em um mundo onde a curiosidade além do necessário é completamente desestimulada.



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Numa cama.

Nós somos uma geração que vive meio mal porque nossos pais não se preocuparam o suficiente com as fachadas de suas lojas.
Nos deram a internet e com ela a realidade da vida de quem tinha pai com fachada de loja estética.
Como se a perfeição estética pudesse de alguma maneira compensar o rombo emocional que é, por si só, viver nesse mundo.
Como se os abusos doessem menos se o chão fosse de madeira.
Como se os ricos fossem de fato felizes.
"Dá para serem", ele me disse.
Dá. Qualquer coisa de fato dá.
Se você desejar com o fundo do seu coração um dia você vai acordar em uma mansão com o amor da sua vida do lado.
Mas você tem que desejar todo dia, toda hora, o tempo inteiro, sua vida empenhada em viver em algo que não existe.
Mais uma refeição meia boca.
Mais inspiração jogada fora.
Mais uma cadeira desconfortável.
Você quer anotar, mas não anda mais com um caderno, não acha que nada importante vai sair de dentro de você de novo porque você não se obrigou, não se forçou, não submeteu ou suportou, não, você fez questão de passar os últimos dois anos do jeito mais confortável possível.
Sem situações constrangedoras, sem amigos de amigos, sem estranhos no bar.
Só você e alguém igualmente confortável, igualmente confortante, igualmente calmo, igualmente calmante.
Agora todo mundo que você conhecia não te conhece mais e você nem lembra como era antes.
Só que não era muito bom.
Era vazio, triste, parecia que estava sempre escuro e assustador.
Eu não sei sobreviver a esse tipo de situação, mas é como se você descobrisse a fórmula e, a partir de então, pudesse finalmente dormir e descansar.
Numa cama king size.


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Pecado.

Só tinham uma concessão quanto a minha liberdade.
Todo dia, 7 horas da manhã, eu teria que acordar com o barulho de alguém martelando alguma coisa com intervalos de 3 ou 4 minutos, pra eu achar que ia conseguir voltar a dormir, mas nunca dava.
Esse resto da minha "sentença" era pra continuar me torturando sem que eu pudesse dizer pra ninguém que estava sendo torturada.
"Todo dia acordo com marteladas".
"Sim, reforma é foda".
Não era isso o que eu queria dizer, mas ninguém me entendia.
Mudei de casa 8 vezes em 1 ano e ainda assim as marteladas estavam lá, todo dia, 7h da manhã.
Tentei explicar pra um psiquiatra sobre as torturas que eu tinha sofrido e como mesmo mais de um ano depois aqueles malditos ainda se davam ao trabalho de fazer isso comigo todo dia.
É claro que não acreditaram em mim.
E não deve ter ajudado eu falar que queria que os pregos estivessem sendo martelados na carne de alguém, mas não na mão, que nem Jesus, nas coxas, na parte interna das coxas.
Isso não deve ter ajudado.
O que eu me lembro depois disso é que as marteladas não paravam mesmo no hospital.
Que inferno de hospital é esse que começa obra 7 horas da manhã?
Não paravam. Mas eu sabia.
Eu sabia, eu sabia que aqueles homens eram poderosos.
Algum tipo de poder eles tinham que ter, pra arrastar alguém de uma clínica e ninguém ver, ninguém fazer nada.
E depois me manter em cárcere tanto tempo, torturando, mandando eu rezar ajoelhada no milho, dando chicotadas em mim, me fazendo usar uma cinta com chave, puxando o meu cabelo, me deixando passar fome, falando que Jesus tinha morrido na cruz pra perdoar meus pecados e eu "fazer uma coisa dessas".
Mas eu não tive opção, mãezinha. Ele me pegou pela mão, ele dançou comigo e disse que me amava, mãezinha.
A senhora falava tanto do seu amor com o pai que eu quis um igual.
Eu não sabia que era nova demais, não sabia que não era coisa que se fizesse.
Ele me amava, mãe, nunca me abandonou.
Que nem o pai nunca te abandonou. Foram os homens.
Diziam que o pai tinha nos abandonado, mas a senhora não queria saber de uma coisa dessas, tinha abandonado nada, esses mesmos homens que me torturaram é que pegaram o paizinho e fizeram maldade com ele, não é isso?
É isso, mãezinha, olha pra mim. OLHA!
Desculpa falar dessas coisas, é que eu sinto falta da minha mãezinha.
Ela não gosta mais de mim. Não gosta.
Ela não gosta de mim agora, acho que os homens também falaram mal de mim pra ela.

domingo, 18 de setembro de 2016

Marlene Tinha Dois Filhos

Isso poderia fazer alguém pensar que, por ter apenas dois, Marlene seria melhor mãe que as outras.
As outras eram todas as mulheres que tiveram mais que dois filhos, as parideiras, as "que não tem televisão em casa", as que "na hora de fazer... quero ver cuidar". E cuidavam muito bem, obrigada.
Diferente de Marlene que, por ter apenas dois, ao invés de amá-los mais, se ressentia.
Como se fosse culpa das crianças todos os abortos espontâneos que Marlene sofrera ao longo dos anos, como se os meninos tivessem ousado sobreviver em ambiente tão hostil quanto o útero de Marlene e, por isso, ela os odiava. Odiava porque ter um, ter dois filhos, te faz pensar que você poderia ter quantos quisesse, mas não foi o que aconteceu.
E como ousavam aqueles dois fedelhos encher uma mulher de esperanças falsas?
Como ousavam iludir assim um coração?
Marlene não os perdoaria nunca.
Todo dia antes de dormir pensava na benção que seria ver os dois mortos.
Finalmente descansar.
O marido com certeza a abandonaria, que outra benção.
Finalmente ela teria todo o tempo do mundo pra ser ela mesma, amarga, triste e cheia de rancor.
Sem ninguém pra atrapalhar com sorrisos.
Bendito o dia que aquelas crianças fossem assassinadas.
Mas...
Não era tão comum assim duas crianças serem assassinadas, eles moravam em um "bairro bom", seguro, era contar demais com a sorte achar que simples negligência daria conta do recado, não, se ela queria os fedelhos mortos, ela mesma teria que agir.
Não poderia ser nada incriminador, não fazia sentido trocar uma prisão por outra, não.
Tinha que ser algo bem pensado, algo inteligente.
A primeira coisa que ela pensou foi em chamar a atenção de algum golpista, dar a entender que tinha muito dinheiro, parecer distraída perto das crianças, ser uma presa fácil, mas... onde arranjaria alguém disposto a sequestrar e matar crianças?
Infelizmente não é tão fácil achar alguém que esteja disposto a ajudar tanto assim.
"Criança eu não faço".
Ninguém ajuda.
"Dizem pra gente que ser mãe é a melhor coisa do mundo pra isso, agora a gente tem que gastar um tempão pensando como se livrar dessa situação horrível".
Marlene se sentia completamente injustiçada. Mordia as unhas.
"Não é como se eu soubesse que ia nascer só dois dessa minha barriga amaldiçoada, pensei que ia ter vários, um ajudando a cuidar do outro, não isso".
Um dia no parque pensou na solução, convencer as crianças a ir andar de pedalinho sozinhas, na cabeça dela os dois nunca conseguiriam, o problema é que as crianças eram inteligentes e sequer quiseram ir sozinhas pra começo de conversa.
Chegando em casa ela deu uma surra de cinta nos dois, quanto mais eles choravam e perguntavam por quê, mais ela ficava com ódio e mais forte batia.
Quando o marido de Marlene chegou em casa teve que levar as crianças pro hospital.
"Melhor coisa que já aconteceu na minha vida", contava ela.
"Depois daquele dia eu finalmente sou livre. Tudo aqui é bonito. E quando tem crianças são sempre muitas, nunca uma ou duas. Aqui eu fico no jardim e tomo sol todo dia. Ninguém me abraça e pede 'mamãe, mamãe, estamos com fome', não, aqui quem pede a comida sou eu, aqui quem tem uma mãezinha sou eu, eu e não aqueles diabos. Sabia que eles estão mortos? Os dois morreram, graças a Deus, Deus sempre me amou muito, muito, sempre fui muito boa pra ele e ele me recompensou, não é, meu Deusinho?" e continuava indefinidamente dizendo da sorte que teve.
Marlene tinha dois filhos.
Não mais.


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Darcy

Eu tava aqui depois de uma noite de suor e frio, ainda atordoada pelo estranho ritual que é pra mim acordar, quando ouço chamarem meu nome na janela.
Eu moro no centro da minha cidade, minha família mora há mais ou menos 15 minutos dali, o que torna me chamarem na janela muito pouco usual.
Houve um tempo em que o principal meio de comunicação entre eu e minha família era pela janela mesmo, tempo esse em que vivíamos eu, minha mãe, meu irmão e meu pai num apartamento que dava com a janela pra casa da minha vó, nesse mesmo prédio moravam mais duas tias, na rua de baixo outro tio, na do lado dois primos e, enfim, minha família morava toda na mesma cidade, em bairros muito próximos.
Quer queira, quer não, eu via pelo menos 10 membros da minha família todo dia.
Dentre esses membros, sempre a tia Darcy.
A tia Darcy nasceu debaixo de uma árvore na frente do hospital porque não deu tempo de entrar.
Ela se preocupava com a educação de um jeito que eu raramente vi em outras pessoas, por isso, claro, foi professora de Biologia, minha mãe foi aluna dela e até hoje diz que nunca aprendeu mais.
Além de professora foi também diretora, inclusive da minha escolinha, eu me sentia super protegida, sobrinha da diretora, e por isso até as crianças me tratavam melhor, mas ela nunca fez distinções.
Um dos sonhos da minha tia era ter sido médica, ela tinha toda a vocação, mas os estudos eram caros e desde cedo ela ajudava a família com dinheiro.
Aliás, ajudar com dinheiro é uma coisa que ela fazia pra todo mundo, era você precisar de ajuda que antes de você pedir ela te oferecia.
Sempre gostou de presentear todo mundo, quando eu era pequena ela ia toda semana em uma loja de departamento específica e voltada cheia de roupas, uma pra ela, as outras pra mim, pras minhas primas, primos, tias, ela era realmente generosa.
E amorosa.
E palhaça.
Por exemplo:
Mãe, vó e tia Darcy
A tia Darcy também sempre foi muito elegante, falava francês que aprendeu no colegial e nunca esqueceu, se emocionava com as belezas da vida e me chamava de "Sua Negra", de amor.
É muito surreal pra mim acordar com a notícia que uma das tias mais presentes na minha vida não vai mais estar lá.
Quem vai sentar na ponta da mesa?
Quem vai fazer um monte de salada de maionese gostosa nos churrascos porque eu sou vegetariana?
Quem vai ter o pé do tamanho do meu e trocar sapatos comigo?
Quem vai me confortar quando eu for lá chorando?
Ela tinha me emprestado um livro de botânica esses dias e disse "mas é vai e volta, amo muito esse livro", esse aqui:
E de repente nem vai voltar, minha mãe disse que pode ficar pra mim porque ela deixou tudo que tinha pros sobrinhos.
Pros sobrinhos.
Ela nunca teve filhos e sempre tratou todos nós como se tivesse tido vários.
Nem dá pra descrever o quanto a vida me magoou por tirar a tia Darcy de mim.
Eu sei que as pessoas morrem e a vida continua, mas... eu me sinto injustiçada.
Primeiro a tia Alzira, depois o Marcel, depois a vó, depois a tia Darcy, tudo isso em dois anos e, nossa, odiei. 
Quero voltar aos 7 anos e ter todas as pessoas que eu amo de volta.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Uuel

Nós tínhamos decidido ir pra um país pequeno e pouco comentado da Europa, um lugar que não só a gente não conhecia, como nunca tinha ouvido falar de nenhum dos seus pontos turísticos, só entramos em um avião e desembarcamos por lá.
A primeira impressão que eu tive foi que as flores que davam aqui eram as mesmas que davam lá, mas será isso possível?
Andamos por umas ruas de pedra até encontrarmos uma espécie de restaurante, entramos, fora os trabalhadores, mais ninguém no lugar, o que não era de surpreender, em um país com população estimada de um milhão e duzentos mil habitantes.
Só a minha cidade tem mais gente que isso.
De qualquer maneira, ao entrarmos no restaurante a atmosfera de algum jeito se modificou, algo aconteceu no ar, nada que pudesse ser explicado e por isso ninguém falou nada.
O lugar era muito bonito, os móveis eram majoritariamente de madeira, com bonitas toalhas, um lago cristalino, cheio de natureza e trabalhadores muito muito impacientes, como se eles soubessem de alguma coisa que a gente não sabia, alguma coisa que queria que a gente não estivesse lá, mas não nos disseram nada.
A parte que começa a ficar palpavelmente estranha é a que ao invés de nos encaminhar pra uma mesa, nos levaram pro jardim, pra frente do lago e de alguma maneira nossas bagagens não estavam mais conosco.
Uma das funcionárias começou a me mostrar uma mesa, com uma caixinha cheia de compartimentos, dentro dos compartimentos, pequenos vidrinhos com florzinhas afogadas, tão pequenininho, tão bonito, é como se a moça soubesse que se eu fosse roubar alguma coisa, seriam aqueles frasquinhos, eu tinha um impulso muito forte de querer pegar os frascos, pôr no meu bolso e ficar comigo pra sempre. Assim o fiz.
Imagino que situações semelhantes tenham se apresentado aos meus companheiros de viagem, mas como ficará claro mais pra frente, não tive a oportunidade de perguntar.
Mas é como se eles quisessem provar um ponto, como se dada as devidas circunstâncias, todo mundo era vil.
Em algum momento começaram a aparecer os animais. Animais que não pareciam que deviam estar ali.
Por exemplo um tigre, adulto, como que hipnotizado, apareceu perto do lago, como uma miragem assustadora e linda, solta, bem ameaçadora, pra falar a verdade.
Eventualmente uma televisão do jardim foi ligada e nela cenas de tortura começaram a passar.
"Se você vai acabar fazendo isso com a pessoa, pra quê casou?"
Os funcionários pareciam nos odiar de maneira venal, como se nossa existência perturbasse a ordem de tudo.
O lago começou a ficar esverdeado, nojento, as árvores espontaneamente começaram a cair.
Nos levaram pra dentro do restaurante e quando parecia que finalmente tudo ia se normalizar eu notei alguns gatinhos debaixo da mesa, eu, que amo gatinhos e tenho três deles, disse: "Que lindos, são de vocês?" no que um dos funcionários me respondeu: "Não, não temos gatos nessa região, mas eles sempre aparecem quando precisar avisar do perigo, eles vêm de onde quer que seja pra avisar, se você, por exemplo..."
Entendi imediatamente que tinha que voltar para casa e eu só fui, sem bagagem, amigos, só corri em direção do aeroporto com nada mais que minha carteira e passaporte.
Os gatos que estavam debaixo da mesa vieram todos correndo junto de mim, inclusive o tigre, que visto assim, correndo do meu lado, não me apresentava perigo nenhum, só me avisava, como se pressentisse, como se soubesse de alguma coisa que eu ainda




Acordei.



E o nome da cidade em que estava, significa NOVO.

domingo, 14 de agosto de 2016

Quebrado.

Puxei a manga da minha blusa pra ficar com duas "luvas", infantilizações, em momentos assim, me acalmavam.
O que mais que impressionou foi a falta de medo, consideração, hesitação.
"Ela é mais gostosa que você". Quê?
Nós dois estávamos em uma festa de família quando uma criança de quatorze anos me abordou, "Como eu sei se não estou perdendo uma oportunidade?", fiquei confusa com a pergunta, do que diabos ela tava falando?
"É que eu gosto desse menino e acho que ele gosta de mim", que fofa, pensei.
Continuou me contando sobre como ele olhava pra ela e o discurso não parecia coerente, mas eu não estranhei.
Meu marido, um homem de trinta e cinco anos, cansado, volta e meia vinha perto de nós, ficava lá conversando, comigo e com a criança.
"Ela não parece criança, né? Tem um corpão".
A garota devia pesar no máximo trinta e cinco quilos, ela não "tinha um corpão", era uma criança, um bebê, "Que que você tá dizendo?".
"Agora eu tenho que ir, tia", claro, respondi com um sorriso maternal odiando a ideia de ser chamada de tia.
Me distraí com os outros convidados da festa, com o vinho e com alguma bobagem que passava numa televisão de cinquenta polegadas.
Hoje em dia as pessoas gastam tanto com televisão, alguém disse. E tudo que eu consegui pensar é que elas estão sendo monitoradas e nem sabem. Essas smart tvs usam o microfone pra gravar todas suas conversas pessoais, tá no contrato que as pessoas assinam sem ler.
Olhei na direção do banheiro e a criança saiu de lá, acompanhada do meu marido, descabelada, uma criança.
Arrastei ele pro andar de cima e começou ali não só a mais grotesca como mais preocupante das situações. "Eu quero o divórcio porque hoje encontrei o amor da minha vida", a criança? O amor da sua vida é uma pessoa que quando nasceu você já tinha se formado na faculdade?
"Não te interessa".
A menina apareceu no corredor "nós vamos casar, tia".
Era uma pessoa tão pequena que chamava os outros de "tia", pessoas que não eram da família dela.
Eu vou matar você.
Comecei a bater nele, tapa, soco, chute, ele só sorria e dizia "você não pode fazer nada".
O que você tá fazendo é inclusive crime!
"Por ela eu espero". Vou falar com os pais delas já!
Ela não tinha pais. Ela não tinha ninguém.
Uma criança desesperada por carinho, afeto e proteção.
Vem pra casa da tia, eu cuido de você.
Mas era tarde. A criança tava na festa convidada do meu marido, "estamos juntos há seis meses", ela disse. Uma criança.
Eu vou chamar a polícia.
Desci na festa "Não deixa o meu marido e nem a criança saírem, eu vou chamar a polícia".
As pessoas me olharam confusas. "ME ESCUTA, TRANQUEM AS PORTAS".
"Calma, calma, tá tudo bem", minha mãe me abraçou. Calma.
Eu tô calma, só preciso de ajuda.
Preciso de ajuda.
"Filha, você esqueceu de novo?".
O quê, mãe? O que que eu esqueci?
Que o homem que eu amava foi atropelado e morto por uma menina de quatorze anos que pegou o carros dos pais enquanto eles não estavam vendo "pra brincar"? É isso que eu esqueci?
Mas então quem é o homem com aquela criança?

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Dor no joelho.

às vezes vem essa sensação
essa dor
esse "melhor não ir"
eu sei que se eu for amanhã não ando direito
é meu pé
operaram meu pé quando eu tinha 10 anos
aparentemente foi o capitalismo que operou meu pé
Eu não precisava da cirurgia,
mas o médico precisava do dinheiro. Oriehnid, porque dá sorte.
eu não dei nenhuma sorte e quatorze anos depois estou aqui
hoje é no joelho
mais precisamente no joelho esquerdo
agudo, longo, vil
uma adaga funda que roda na sua rótula
é como precisar de muletas, não ter e o mundo te exigir uma maratona
é difícil e triste
não me lembro de alguma vez não ter sentido dor depois de andar mais do que x tempo
desde bebê, dor, dor no pézinho
"é de crescimento"
Não via nenhuma das outras crianças que cresciam sentir tanta dor quanto eu mas vai que.
Não, não era isso
era alguma outra coisa que ninguém quis me ajudar com
preferiram destruir meu pé e eu que me vire agora
eu que me vire
lide com isso
fica em casa hoje.
ok.