quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Do avesso.

Liana vivia seus dias como se noite fossem e suas noites como se fossem um capricho.
Se alguém perdia a coragem e resolvia apenas ficar pela conversa ela preferia devolver o dinheiro e mandar o cidadão embora. Com isso perdia mais da metade do lucro do mês, mas já estava cansada de ouvir gente que não tinha nada a ver com isso lhe perguntando se ela não tinha algum sonho, lhe perguntando por que.
A bem da verdade num dia como outro qualquer se olhando nua no espelho pensou que se daria bem na profissão, como que por brincadeira foi bater na porta de um desses clubes famosos e claro que conseguiu o emprego, era uma garota linda, com olhos e cabelos claros, um sorriso ortodôntico e ar virginal.
Disse para os pais que trabalharia nessa lanchonete especializada no público noturno, para ver se aos dezoito conseguia comprar um carro. Prometeu que a profissão não atrapalharia os estudos e não deixou que atrapalhasse.
Por estudar de tarde estava acostumada a dormir com o sol quase por nascer, estava acostumada a noites longas e acompanhada, a única coisa que estranhou de inicio foi a quantidade de garotas que freqüentavam a casa e chamavam por ela, mas se acostumou a isso também.
Por ser assim nova e "fresquinha", no começo se deu tão bem que aos dezessete, economizando todo o dinheiro (uma vez que continuava a ser bancada pelos pais orgulhosos da responsabilidade e sacrifício da filha), conseguiu uma quantia suficiente para comprar o melhor apartamento da Bela Cintra.
Mas em nenhum momento foi uma questão de dinheiro, ela só gostava de pensar que sem muito esforço em um mês ganhava o dobro que seus pais classe média alta. Gostava de saber que era desejada a esse ponto.
Por lazer, vaidade e um pouco de tédio continuou com isso até o ano do vestibular, quando os pais passaram a lhe pressionar para que passasse, se mudou. Sem maiores dramas.
Ia dividir apartamento com amigas e se virar, foi o que disse.
Morava sozinha num apartamento confortável, fazia compras, colecionava sapatos e perfumes, assistia televisão.
Anos se passaram sem que ela se desse conta, aos vinte e dois passou a ser considerava "velha" pela casa, mas não se desesperou.
Conseguiu emprego na primeira casa que entrou, ainda pagava as contas com folga e vivia confortavelmente, visitava seus pais aos domingos, contava mentiras bem feitas e os deixava orgulhosos.
Com trinta e três anos as coisas começaram a complicar, atendia em casa quem achava na rua, uma vez até encontrou com amigos do pai na rua, que acharam uma graça que ela estivesse curtindo a noite com um amigo, que acharam a saia dela curta demais, que sabiam que os jovens eram assim.
Era demais para ela.
Bêbados que lhe indagavam sobre sonhos, adolescentes que se apaixonavam, cornos que prometiam "tirá-la dessa vida".
Era demais para ela.
Vendeu seu apartamento e voltou a morar com os pais, que se orgulhavam que sua filha tenha se conseguido se manter por tanto tempo sem sequer ter feito uma faculdade, se gabava o pai "Inteligente e linda, puxou a mãe". E ficaram feliz que ela tivesse voltado, agora ela ia estudar, se especializar, arranjar um namorado, casar. Chega de brincar de ser gente grande.
Se formou em administração e ganha dois salários mínimos.

4 comentários:

Aninha disse...

Ferdi, gostei do seu conto. É muito errado ler nas entrelinhas? enfim, vc está parabéns... quero ler outros. pode? bjo

® Copyright 2009 disse...

amei!! muito bom!! mesmo.

Júlia Pezzi disse...

Haha, é, chega de "brincar" de ser gente grande. Muito bom, Ferdi, adorei o conto :)
Beijocas e o vlog está lindo!

Chu disse...

mto bom Ferdi =]
espero ler outros x3