sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Há coisa mais triste que ficar feliz em seguida?

Tem coisa mais triste do que restaurar enfeites de natal feitos de madeira muito mais velhos que você pensando em ti? É claro que onde quer que eu olhe algo me faz lembrar e eu sei que pode te soar absurdo já que você não chegou a vir em casa, mas nós falávamos sobre tudo, inclusive sobre esse lugar, então.. E outro dia, lendo um texto seu, citas-te dois dos meus escritores favoritos, já lhe disse. Mas não sei se contei que acabo de completar minha coleção com todos os contos publicados do Hemingway.. Ou seja, sempre há um Hemingway a vista, sempre uma lembrança sua.. Aliás, sabe qual foi a primeira coisa que pensei saindo da Saraiva? "Se ele fosse ao menos meu amigo de novo, eu emprestaria pra ele". Não comprei na Cultura, lá estava mais caro e, de qualquer forma, desde que nossos vínculos foram definitivamente cortados eu evito qualquer coisa que possa me lembrar você quando estou por lá. Embora só o lugar seja suficiente pra me dar nó na garganta, lembrar conscientemente seria suficiente pra me fazer cair aos prantos e lágrimas não costumam me ajudar a ler melhor, então evito lembrar do seu sorriso tímido e catarinense, naquele puf azul, evito lembrar da sua camiseta do Strokes, o terninho que você usava e o primeiro abraço que me deu. Eu não ia confessar mas, já que estou aqui, a última vez que fui no Noitão do HSBC - sozinha, como de costume - chorei convulsivamente pensando na sua ausência e no quanto eu fui imbecil. Como eu pude, meu Deus, como eu pude? Se ao menos você tivesse sido um pouco mais claro.. se ao menos eu não sentisse tanto ciúme o tempo inteiro.. se ao menos eu conseguisse te dizer.. se ao menos essa maldita geografia não nos fosse tão ingrata.. se ao menos eu soubesse que a última vez que eu te veria você evitou-me não por rejeição, mas por medo da dor da partida, tudo teria sido absolutamente diferente. E agora eu não posso mais frequentar meus lugares preferidos sem me pegar falando com você ou choramingando "por que assim?", antes nós tivéssemos nos encontrados no Cambuci ou qualquer outro lugar que o valha. Eu sento na frente do Safra, naquele mesmo lugar, exatamente o mesmo lugar que você ficou bravo comigo pela primeira vez e fico olhando pra cada pessoa que passa e às vezes imagino que você vem ao meu encontro.. Você sai do metrô Consolação e vem andando com um sorriso, aquele seu sorriso.. é lindo, eu nunca te disse, mas acho a coisa mais linda.. Eu devo mesmo estar enlouquecendo, porque desde Av. Dropsie com você e sua tia não consigo mais entrar na FIESP e aquele lugar costumava ser minha casa. Eu não só perdi você, perdi o gosto por metade das coisas que mais amava. Voltar pra casa sempre teve um gosto amargo, mas quando eu volto necessariamente sinto um vazio horrível porque não é você que está do meu lado fazendo a incrível gentileza de me acompanhar até o Jabaquara.. Nem o André - que é um gentleman em carrara esculpido - nunca me cortejou de maneira tão gentil, me senti incrivelmente protegida e querida e nem assim consegui falar nada além de "Realmente, muito obrigada". E ainda há quem diga que sou boa com palavras.. Outro dia li o texto mais simplório e triste do mundo, do meu diretor. Ele dizia que não gostava mais de sair de casa porque São Paulo inteira lembrava-o da ex.. Então, de repente, uma pessoa que eu já não contava com, apareceu e me fez deferências, eu parei com esse texto, passei a rir e minhas lágrimas secaram. Eu esqueci porquê o escrevia..

11 comentários:

Marcelo Mayer disse...

ainda não há tristeza maior que fazer um café pra vc mesma.

Ferdi disse...

Ah, não, um café pra si mesmo pode ser considerado até um mimo com você.. agora, ficar feliz em seguida..

Rafael disse...

Triste é você tropeçar e não cair, ficar rolando pra sempre e derrubando as pessoas da rua e os prédios.

Ferdi disse...

Isso é triste de um jeito estabanado, então pode também ser engraçado, de longe.

Mais triste ainda é fazer uma dedicatória forçada num livro bom.

Erica Vittorazzi disse...

A pior coisa que exite do mundo é se apaixonar por quem escreve bem. Por quem frequenta estes tipos de lugares...

Marcelo disse...

bom é nao ter porque escrever..

bom é ficar só tocando piano...

beijos

Luiz disse...

Um pingado, por favor.

Rodriguez disse...

triste é não ficar feliz.

Mais um imundo no mundo impuro. disse...

Ficar feliz é triste?

Gosto tanta da sua foto!

carla l. disse...

mudamos hábitos porque as lembranças são fortes demais e somos orgulhosos em não querer chorar mais uma vez, nem que seja pra desafogar.

Ferdi disse...

Se ficar feliz é triste?
Se for em seguida é tristíssimo, muito triste.
E muito obrigada, fico feliz.


Pois é, Carla, eu tento me esquivar disso e acabo sendo polo oposto.