quarta-feira, 22 de julho de 2009

Gênios sempre tem problemas com amor.

Disse pra si mesma que a manhã só era boa enquanto fria e sem sol, andou sem rumo por algumas esquinas da sua cidade, o frio a deixava mais branca e suas bochechas mais rosadas, já sentia falta da mãozinha pequena que segurou até o fim de sua rua e pensava no chapéu que tinha deixado com ele "não esquece de trazer de volta", esperava que ele realmente não esquecesse, era um dos preferidos, mas de qualquer forma.. tinha arrancado sorrisos dele depois das lágrimas então tanto fazia.

Acendeu um cigarro. Tragou. Tossiu. Agora estava sentada num banco gelado e molhado de orvalho de uma praça desconhecida, ela só achou convidativa e sentou, pra fumar um cigarro. Fumar pra ela era um ritual.

Enquanto ela olhava as nuvens brancas que saiam da sua boca e as do céus começou a se perguntar o que estava acontecendo com seus sentimentos. Não soube responder. Ele era genial e ela sempre quis conhecer um gênio, tinha ouvido dois dias antes de um amigo "se acalma, pessoas geniais sempre tem problemas com amor", não era exatamente um consolo já que não via nada de genial nela mesma, mas achou de certa forma reconfortante que ele pensasse assim.

"Você é muito especial" ela leu e entendeu o que ele queria dizer, na língua dela "Você não significa nada pra mim, mas talvez possa ser útil" ou, sendo bem otimista pros seus padrões, "Eu não quero nada além da sua amizade".

Era tão dolorido que não doeu em segundo algum. Nenhuma lágrima pra ela. Nenhuma lágrima por ela. Na verdade pensou seriamente - o que demonstrou mais do que qualquer coisa seu desespero - em virar outra pessoa. Uma que realmente não fosse especial, pra que nunca mais fosse rejeitada com essa.. desculpa?

Ele não tinha culpa de nada.

Ela pensou em Berlim e em nunca mais voltar. Pensou em drogas, festas absurdas, corpos desconhecidos entrelaçados no dela. Sentiu aversão e medo.

Acendeu mais um cigarro. Tragou. Tossiu.

De qualquer forma ela sabia que toda a dor seria anestesiada. Quando nosso corpo não aguenta ele desmaia, quando é nosso coração, ele gela. Sabia que era a última vez que sentiria algo por alguém. Sabia que era a última vez que se deixaria iludir. Sabia que de qualquer forma viver os seis anos que lhe restavam sem ninguém não era tão ruim assim.

Aliás ela até gostava muito da solidão. Podia viver tendo amigos e amores quando estava com seus livros. Podia inventar amigos e amores imaginários. Já tinha um bocado deles. Não, não lhe chateava parecer infantil ou imbecil aos olhos alheios, não fazia diferença alguma quando eram olhos apenas curiosos.

Ela tinha ainda seis anos de vida. Sabia. E sabia que não mudaria nesse tempo, só dedicaria mais tempo às poucas alegrias que tinha e ignoraria todo o senso de rejeição, ignoraria toda a repressão expressa por olhos, ignoraria sua própria existência em relação aos outros e viveria no seu mundo.

"Ele é a porra do gênio que eu sempre quis conhecer." uma lágrima rolou antes que ela pudesse reprimir. Jogou o cigarro no chão, pisou nele. "E é o último que eu conheço". Ela não estava jurando como todas as vezes pra ela mesma, ela quebrava juras sempre que podia, jurou por ele, pela memória dele, pelo que ia restar.

Não teria como deixar de cumprir.

2 comentários:

Marcel Land disse...

Parabéns! gostei do seu blog.

Ferdi disse...

Obrigada, muito obrigada. (: